
Marchámos penosamente pelo deserto, perdendo a conta de quantas vezes desmaia-mos, tal era a podridão do vazio dentro e fora de nós.
Os nossos oásis eram os nossos sonhos, isentos de verdade e de esperança degolada.
Bebemos água estragada, em prol da morte. Nunca soubemos parar e caminhámos em todas as direcções, rumo a nada. Porque nada havia e nada queríamos encontrar.
Cruzámo-nos com gente, mas eles seguiram sempre em frente.
Morremos e ressuscitámos, e desejámos tanto morrer novamente.
Desesperámos no eco ressonante do vazio das nossas emoções, tantas vezes tivémos certos que era uma questão de tempo e que seria assim até ao fim. O fim não chegava mais, e quanto maior a agonia, maior a dor e sem culpa a crescente resistância.
Houve tempo para quase tudo, tudo mesmo, e não tudo o que toda a gente diz que sabe; mas coube sempre mais dor enraivecida, e revolta provada, para continuar.
Ainda tivémos tempo para sentir e ter tudo, e tal como a palavra, tudo é sempre quase nada.
A imortalidade regou-nos os desvairíos pensamentos, talvez como forma aglutinante de consolo, que tombou, depois duma temporada.
Nunca saberemos se realmente recomeçámos, se dessipámos, se desistimos ou se recuperámos.
Cambaleámos e caímos e já não lembramos se nos levantámos.
O fim não existe para nós, tantos foram os fins que passámos.
Custará sempre acreditar se estamos ainda no deserto, a viver o pesadelo, no deserto a sonhar ou se voltámos a caminhar...